segunda-feira, 13 de abril de 2015

[Fundo de Catálogo] Dick Dale - Surfer's Choise (1962)


Dick Dale era apenas um surfista teso, um fã do country de Hank Wlliams, sem um tostão ou dólar. Sozinho inventou a surf music, uma das variantes do rock' n' roll que explorou o formato canção e o instrumental. 

É na guitarra que está a pedra de toque do género, uma nova abordagem que foi contra todas as convenções: o instrumento colocado ao contrário e com um som que parecia o de uma bateria e com eco. Os Shadows também terão sido uma influência, foram a banda que mais perto chegou ao som da guitarra de Dale, ele filho de pai libanês, cuja influência se vai notando no material do músico.


Dale era surfista, mas para ser da cena não era necessário sê-lo - apenas um dos Beach Boys (que também se estrearam timidamente em 62) o era. Mas justificou o surf como moda da altura: a Califórnia como palco de uma loucura generalizada - os jovens queriam praticar surf. Como ainda hoje acontece com outras modas, muitas foram as bandas que começaram tão rápido como acabaram: os Belairs e os Gamblers, por exemplo.


Depois do rock' n' roll, os sons multiplicavam-se: a surf music inventou uma dança, uma cena, um som. Dale chegou a trabalhar com a Fender na tentativa de criar um som mais alto e denso, algo que terá estados por trás da criação do heavy metal.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Father John Misty - I Love You, Honeybear


Josh Tillman, ou seja, o pregador Father John Misty tem os mesmo problemas que quase todos nós, personagens de um mundo contemporâneo de bolsos rotos, mas com smartphone em punho. John Misty refere "Deus" e "Jesus" umas quantas vezes, mas estará longe de ser cristão. "Amarás o próximo como a ti mesmo", sim, mas com a tecnologia fica difícil dares-te com o outro, quanto mais com o próximo. "True Affaction", paradoxalmente, discorre sobre essa mais do que debatida questão da substituição das pessoas pelo iPhone. Durante a transição de Fear Fun para este I Love You, Honeybear, Tillman encontrou o amor, seja lá o que isso for para John Misty, o sarcástico alter-ego. Nota-se na faixa homónima, apesar da dificuldade em discernir o que é sarcasmo do que é sincero. Não o queremos comparar às muitas faces de Dylan nem a Bowie, mas Father John Misty brinca com as nossas percepções e apela à nossa atenção num mundo em que é cada vez mais difícil parar durante 44 minutos e ouvir um grande disco.

segunda-feira, 16 de março de 2015

[Fundo de Catálogo] Ray Charles - Modern Sounds in Country and Western Music (1962)


Não é o primeiro álbum de Ray Charles para a ABC-Paramount Records, mas é o primeiro em que se faz valer da cláusula que defende a sua total liberdade criativa. A editora chumbou um disco de versões country, mas Ray agarrou-se à tal clausula e, apesar das tentativas da editora, avançou para aquele que é, muito provavelmente, o álbum mais importante da sua carreira.



Um álbum country na voz de um preto, em plena luta pelos direitos civis? O antecipado suicídio comercial acabou por resultar num marco nas lutas dos negros nos anos 60. Cada som tem uma raça, diziam-lhe. E ele discordava. Hoje é fácil dar-lhe razão, mas em 1962 ainda não tinha passado meia década desde que Chuck Berry perdeu a sua base de fãs branca, no momento em que a mesma descobriu que aquele tipo com voz de branco era afinal um negro.



A pergunta mantém-se: um disco de versões country em 62? Calma, são versões country com roupagens jazz, gospel e r&b. Resultou tão bem que, três meses e 500 mil cópias vendidas depois, era a editora que pedia um segundo disco de versões. A loucura de Ray Charles vendeu em ambos os mercados, o do country e o r&b. Só "I Can't Stop Loving You" vendeu 700 mil cópias em apenas quatro semanas. Willie Nelson viria a dizer que Ray "fez mais pelo country do que qualquer artista". Billy Joel afirmou: "aqui está um preto a oferecer uma música tão branca quanto possível, enquanto a segregação racial vivia os seus tempos mais complicados."



É este primeiro volume que interessa, é a obra de um visionário que compôs um álbum contra e contra todos. O segundo volume é um capricho da editora e o reconhecimento do génio de Ray Charles. 

sábado, 14 de março de 2015

Natalie Prass - Natalie Prass / Matthew E. White - Fresh Blood


A Spacebomb é a editora deste início de 2015. A força advém dos dois álbuns editados neste primeiro trimestre: primeiro foi Natalie Prass com uma muito aplaudida estreia homónima e depois Matthew E. White com o sucessor do excelente Big Inner, marcante disco de 2012. O fio condutor está em White, carismático fundador, líder e cara da editora, também co-produtor do disco de Prass. Há um novo geek na soul, portanto, uma espécie de Mayer Hawthorne com mais 10 quilos de barba. Há nos dois registos um cuidado quase obsessivo com a produção que obriga a audições repetidas e atentas. A estreia de Prass levou três anos a ser editado e a rapariga já não está de coração partido, como estão as letras de Natalie Prass. A reabilitação foi total - ela sobreviveu e as canções também. A voz lembra em momentos distintos Eleanor Friedberger e Joanna Newsom - tudo embrulhado numa grandiosa folk orquestral. Já Matthew E. White, cujo primeiro registo resultou num sucesso inesperado, não repete, claro, a surpresa. Repete, aliás, a fórmula soul, com duas novidades: menos coros épicos e mais gospel. O resultado não é tão deslumbrante como em Big Inner.



quinta-feira, 5 de março de 2015

Jazmine Sullivan - Reality Show


Que figura de estilo está empregue no título do novo álbum de Jazmine Sullivan? Sarcasmo? Metáfora? É um reality show como aqueles que vemos na televisão (afinal de contas é isso que nos mostra a capa) ? É a realidade pura e dura como nos mostram as letras do terceiro de originais da artista que há coisa de quatro anos anunciou um hiato via Twitter: "i'm trying to figure out who I am… w/out a mike, paper or pen. i promised myself when it wasn't fun anymore i wouldn't do it. and here i am."

Respostas? Que se lixem. Este regresso quatro/cinco anos depois e com alguns quilos a mais, está mais do que aprovado. No preciso momento em que saia da cena, na altura do tal tweet, o r&b foi -se transformando através de artistas como Weeknd, Drake ou Frank Ocean. Sullivan não encaixa no estereótipo da diva r&b e este registo é mais uma aproximação a estes nomes. A mutação não é declarada, o que lhe garante um som diferente do que já estamos à espera de ouvir em 2015. Cinco anos depois do tweet encontrou-se.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

[Fundo de Catálogo] Bob Dylan - Bob Dylan (1962)


Bob Dylan, ou seja, Dylan Thomas a servir de inspiração para o nome pelo qual Robert Allen Zimmerman haveria de ser reconhecido. O mito começa aqui. John H. Hammond, que dez anos depois haveria de fazer o mesmo com Bruce Springsteen, agarra e leva-o à editora, a Columbia, uma das poucas que não o tinha recusado. Muda-se para Nova Iorque e grava tudo num só take e três tardes - relatos das sessões referem-se a ele como indisciplinado, "não consigo tocar a mesma canção duas vezes seguidas", terá dito. 402 dólares custou Bob Dylan. Não vendeu quase nada (cerca de 500 cópias no Reino Unido, residualmente nos Estados Unidos), mas não terá dado prejuízo. A "Loucura do Hammond", foi assim que o protegido de John H. passou a ser conhecido após o falhanço comercial.



Clássicos folk - ouviu todos os seis discos e cerca de oito horas da compilação Folkways Anthology of American Folk Music - e blues compõe o essencial do reportório. O resto são dois originais escritos pelo próprio, "Talkin' New York" e "Song to Woody". A capa guarda aquelas que talvez sejam as mais interessantes histórias que rodeiam a estreia discográfica de Dylan: a dita coloca a fotografia de Dylan ao contrário, tudo para que a guitarra não tapasse o logo da Columbia Records. A fotografia é de Don Hunstein, na altura o fotógrafo oficial da editora que haveria também de imortalizar as capas de The Freewheelin também de Dylan e Sounds Of Silence dos Simon & Garfunkel. 


Não é o melhor álbum de Dylan, está aliás longe de o ser, é apenas um disco de versões - algo muito valorizado no início dos anos 60, altura em que as covers vendiam mais um artista do que os originais -, mas conserva já o tique que haveria de compor os melhores anos de Dylan: a atitude "não quero saber" que o levou à mudança de som e álbuns propositadamente maus. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Mark Ronson - Uptown Special


Não é de agora nem vem na sequência de Random Access Memories (RAM) dos Daft Punk. Aliás, vem na sequência de RAM, mas não terá sido essa a grande motivação de Mark Ronson para este quarto álbum a solo. Aliás, Ronson já fazia isto quando os Daft Punk se auto-proclamavam Human After All, ao mesmo tempo que, ironicamente, editavam o seu registo menos humano. Uptown Special é um álbum à Mark Ronson, ou seja, ele pensa o que os outros executam. Neste caso, os outros são o romancista Michael Chabon (nas letras), Bruno Mars (na incrível "Uptown Funk"), Mystical (qual James Brown em "Feel Right") e Kevin Parker (os momentos mais singulares/psicadélicos). Ou seja, Uptown Special é uma vénia à soul, funk, r&b dos anos 60/70 - com Stevie Wonder a fazer a ponte entre esses anos e os de hoje - e o prolongar da interminável lista de contactos do produtor.