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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

[Fundo de Catálogo] Johnny Cash - Johnny Cash and His Hot Blue Guitar (1957)


Quando editou Johnny Cash and His Hot Blue Guitar em 1957, Cash já tinha passado pela Alemanha, conhecido a rejeição do pai e carregava o sentimento de culpa na morte do irmão mais velho. Já tinha sido rejeitado pelo mesmo Sam Philips que o lançaria através da sua Sun Records - Cash queria o gospel, Philips considerava-o igual a tantos outros nesse campeonato. Foi repescado através de um country que não é (só) country - também é gospel (embrulha, Sam!), blues, rock, soul, etc.  

Quando editou Johnny Cash and His Hot Blue Guitar, o homem de negro já tinha editado "Cry Cry Cry", primeiro single, primeiro sucesso, motivação para continuar uma obra maior que acabaria por tocar em prisões. Actuações que, em noite de réveillon, inspirariam ex-reclusos a seguir uma carreira na primeira divisão country.



No início, Cash, confesso fã do Rei, imitava/homenageava/satirizava Elvis Presley durante os concertos. Apesar da boa disposição, a voz, as letras, a imagem já eram negras, muito negras. O passado de Cash a aterrorizar/inspirar o seu presente. A inspiração era tal que "as letras vinham à medida que as ia escrevendo. Levei 20 minutos a terminar a canção." O desabafo refere-se a "Walk the Line", provavelmente o grande clássico da estreia daquele que viria a ser apelidado de Keith Richards do country. A canção, sabemos, é dedicada à sua ex-mulher, é a ressaca do primeiro casamento, o que antecedeu uma das mais belas história da música contemporânea: Johnny Cash & June Carter.


Ainda antes da primeira edição a sério,  o homem que desafiava sem medos o público, virando-lhe as costas, já se tinha juntado a Elvis, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis naquele que se tornou o primeiro super grupo de sempre, os Million Dollar Quartet. "Rock Island Line" toca o rock' n' roll, mas são artistas gospel e blues que o inspiram: as Sister Rosetta e as Rosettes, Bill Monroe, Hank Williams e Jimmy Rogers.

Com Johnny Cash and His Hot Blue Guitar, o gospel seria definitivamente enterrado, Johnny Cash começava a sua caminhada para se tornar na grande lenda do country. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

[Fundo de Catálogo] Elvis Presley - Elvis Presley (1956)


Não era suposto o puto ser Rei, nem do liceu, nem do rock' n' roll. Mas foi. "Heartbreak Hotel" foi o primeiro sinal que o álbum homónimo viria confirmar. Gravado entre os Sun Studios, em Memphis, e os estúdios da RCA, em Nashville, Elvis Presley chega às lojas a Março de 1956, alcançando o nº 1 do Top Pop Albums da Billboard. Por lá se manteve durante dez semanas, feito incrível para uma linguagem que ainda dava os primeiros passos. Se o disco de estreia de Bill Haley trouxe o rock' n' roll para o mainstream, Elvis elevou-o à estratosfera comercial. O homem já era alvo de alguma atenção, mas a estreia discográfica torna-se no primeiro álbum de rock a bater a marca do milhão de unidades. É apenas neste contexto que conseguimos perceber a célebre citação de John Lennon: "Before Elvis, there was nothing" (Antes de Elvis não existia nada).



Elvis, o cantor, o artista, o performer, tinha tudo para não resultar. A inabilidade televisiva, os dedos que apontavam na direcção de um tipo branco a cantar música de negros. Mais importante ainda: grande parte dos jovens norte-americanos queriam ser como ele e (surpresa!) pais, padres e professores não gostavam da ideia. Elvis era visto como um rebelde e despertava a sexualidade nas mulheres. Mas, como desde o início dos tempos, o fruto proibido é o mais apetecido. Elvis só não se tornaria Rei do liceu, onde terá passado despercebido. 

A imortalidade e mitologia de Elvis Presley começa pela capa: durante anos pensou-se que a fotografia da mesma era autoria de Popsie Randolph, uma vez que no álbum surge creditado como fotógrafo. Já em 2002, o produtor Joseph A. Tunzi viria a esclarecer tudo, destacando o facto de a fotografia pertencer a William V. "Red" Robertson, ele dos Robertson & Fresh. Mas o legado vai para lá da sua beleza e mitologia. A capa de Elvis Presley inspirou, entre muitas outras, a icónica capa de London Calling, o álbum clássico dos Clash. 


Elvis era acima de tudo um performer, pelo que nenhuma destas canções foi escrita pela sua pena. "Blue Suede Shoes", por exemplo, é um original de Carl Perkins influenciado pela experiência de guerra de Johnny Cash. Reza a lenda que Cash terá conhecido um aviador chamado C. V. White durante a 2ª Grande Guerra, na Alemanha. Certo dia, em conversa, White ter-se-à referido aos sapatos dos próprios aviadores como "blue suede shoes". Cash terá contado esta história a Perkins juntamente com um pedido: "escreve uma canção sobre isto". Nunca tendo visto tais sapatos, Perkins guardou a ideia na memória. Mais tarde, num concerto do próprio, um tipo da plateia virou-se para Perkins reclamando para que não lhe pisasse os sapatos, os tais blue suede shoes. "I Got a Woman", "Tutti Frutti" (a do mítico "a-wop-bom-a-loo-mop-a-lomp-bom-bom") são outros célebres originais que Elvis repescou. A ascensão começou aqui.