A experimentação do pós-Sgt Peppers não se sugeria gratuita. Os Rascals, por exemplo, no seu 1º álbum sem o prefixo "Young" arriscaram técnicas de estúdio, mas o álbum caiu em saco roto por não revelar a inovação que outros tentavam trazer à equação. Não basta colocar sons de passarinhos e/ou outras trivialidades para soar fresco e fofo. É por isso que o registo de estreia dos Blood, Sweat & Tears é tão importante: traz o jazz, a música clássica e até a bossa nova para territórios rock. É rock sinfónico? Não é bem isso. Aliás, Child Is Father to the Man soa mais ao material que a Motown ou a Stax faziam sair das suas linhas de montagem. O homem que montou isto tudo, Al Kooper, terá bebido inspiração de um lustroso espectáculo jazz de Maynard Ferguson, em 1960, e lá enfiou uma secção de sopros num disco rock. Os pergaminhos já incluíam o trabalho enquanto teclista em "Like a Rolling Stone" e a actuação no Newport Folk Festival 1965. O líder da anterior banda blues, os The Blues Project, da qual pouco ou nada reza a história, terá recusado os tais sopros.
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quarta-feira, 28 de junho de 2017
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
[Fundo de Catálogo] The Beatles - Revolver (1966)
É tido como um dos melhores discos de sempre, mas vamos considerá-lo antes de mais um dos discos mais livres de sempre. Porque rompe com tudo o que tinha sido feito anteriormente, porque manda o totalitarismo editorial dar uma volta. Sim, é verdade que, como já vimos anteriormente neste blogue, o psicadelismo já tinha tido vários inícios, mas com Revolver é seguro dizer que o modelo psicadélico chega à sua idade adulta. Bem, na verdade nada é seguro em Revolver. Pet Sounds é magnífico, mas é outra coisa. Mesmo Rubber Soul, embora Harrison tenha dito que não via grandes diferenças entre os dois discos, sendo que, para o Beatle, o disco de 1965 era o Volume Um e este o Volume Dois.
O sétimo dos Beatles marca a preponderância de Lennon em relação a um McCartney baladeiro, perfeito para os Beatles anteriores, menos presente nestes que iam experimentando LSD. Mas Lennon não estava só, Harrison era companhia para as trips e ganhava espaço: três das 14 canções são dele. Lennon materializa as tais trips e acaba por confessar-se: "Beatles are bigger than Jesus". Caldo entornado, a América não lhe perdoa as palavras e faz o que pode: queima os discos. Vale-lhes que essa América não é a mesma América que inspiraram e que tanto os inspirava, ou seja, Beach Boys, Motown/Stax, Dylan.
Robert Rodriguez, autor entre outras obras de Revolver How the Beatles Reimagined Rock'n'Roll, diz que Revolver criou, nas suas 14 faixas, todos os outros géneros da pop, da electrónica ao punk, passando pela world music. Acrescentamos que só não terão inventado a soul e o r&b pois já tinham sido inventados. Bem-vindos à era psicadélica.
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segunda-feira, 31 de outubro de 2016
[Fundo de Catálogo] The Mothers of Invention - Freak Out! (1966)
Se estudássemos uma disciplina chamada Frank Zappa e o primeiro teste se concentrasse no álbum de estreia dos Mothers of Invention, Freak Out! eis uma proposta de pergunta e resposta simples:
- Este é o primeiro disco psicadélico da história? Também.
- É o melhor álbum de Zappa? Claro que não.
- É o mais importante? Um dos...
Estávamos em 1966 e a história do rock mudava a cada mês, no anterior Dylan tinha incluído canções de quase 12 minutos em Blonde on Blonde no mesmo dia em que Brial Wilson e os Beach Boys mudaram a história da produção discográfica com Pet Sounds. Frank Zappa voltava a baralhar a história da pop. E baralhava com um disco de quatro lados (novidade absoluta) e conceptual sobre a América: o Vietname, os Tumultos de Watts e, consequentemente, os direitos civis, o jornalismo, até Elvis Presley.
A história é digna dos clássicos: Tom Wilson, homem experiente que já tinha produzido Dylan e Simon & Garfunkel, assina-os convencido que são uma "white blues band". Wilson, ao contrário de quase toda a gente rodeava outro Wilson, o Brian dos Beach Boys, abraçou a diferença e acreditou que esta fritaria poderia ser marcante. Terá gasto uma fortuna e arriscado o emprego, isto numa altura em que a paranóia, o invulgar e a diferença supostamente não pagavam contas. Mas nem tudo é difícil em Freak Out!: há doo-wop e canções como "Go Cry On Someone Else's Shoulder" que só no cinismo e idiossincrasias de Zappa diferia do que uma data de grupos r&b e soul iam fazendo em editoras como a Motown ou a Stax.
Disco de culto, pioneiro naquilo a que se convencionou chamar de avant-garde.
terça-feira, 28 de julho de 2015
[Fundo de Catálogo] Supremes - Where Did Our Love Go (1964)
Para chegarmos à história da Motown e da explosão das Supremes, há que recuar aos anos 20 e 30, quando milhão e meio de afro-americanos terão deixado o Sul rural para investir numa vida melhor nas cidades industrializadas de Cleveland, Chicago e, claro, Detroit. A Motown foi um produto da cidade, da Motorcity que antes de conhecer a bancarrota nos anos 70 e adiante, representou o progresso até aos 60, com a General Motors, a Chrysler e a Ford. Esta última e a sua linha de montagem terá sido a inspiração para a editora, também ela uma linha de montagem, sim, mas de produtores e músicos. Os produtores: Lamont Dozier e os irmãos Brian e Eddie Holland. Os músicos: The Miracles, Martha and the Vandellas, The Temptations e os Four Tops, só para citar alguns dos mais celebrados na altura.
O dinheiro não é o mais importante, dizia-se. E conseguimos acreditar que o que movia aquele conjunto de artistas era o progresso, a vontade de criar e continuar a desbravar caminhos. A evolução, tal como nos carros que eram construídos ali ao lado, é vital. O processo: escrever a canção, escolher o artista, arranjar a canção, entrar em estúdio, gravar, mixar e produzir. E a rodela estava na rua. As Supremes fizeram deste processo um trunfo e representaram a primeira banda de mulheres negras a ser alvo de grande exposição, foram as primeiras a colocar três singles do mesmo álbum no Top da Billboard. Where Did Our Love Go aguentou-se quatro semanas na 2ª posição e 89 nos Tops da mesma Billboard. Por outras palavras: introduziram o "Motown Sound" às massas.
Mas as Supremes não acertaram à primeira. Não: vários singles falharam ao longo de quatro/cinco anos, até que, inspiradas pelo som Phil Spector chegaram lá, ao estatuto de quase-Beatles. Where Did Your Love Go tem muito daquilo que o som das girls groups haveria de nos habituar: palmas, coros doo-wop e grandes melodias. E tem a faixa-título e "Baby Love", clássicos para sempre. O domínio haveria de durar até 1969, altura em que o ego de Diana Ross a levou para o campeonato da pop.
sábado, 6 de setembro de 2014
Kelis - Food
Desde que a relação entre Kelis e Nas terminou, a um nível meramente qualitativo, ambos seguiram caminhos bastante distintos. O rapper regressou em boa forma com Life is Good, título que força a ideia de que já teria ultrapassado o complicado divórcio e Kelis editou Fresh Tone, cujo título também tem uma conotação literal mas ambígua - novo começou, depois do divórcio? Desvio criativo? A mudança de som é tão radical que apostamos as fichas todas na segunda hipótese. Com este álbum, e como é seu apanágio, Kelis atirou-se ao inesperado e juntou-se, por exemplo, a David Guetta e Benny Benassi - artistas que, relembre-se, fecharam a edição 2014 do Sudoeste, no Dia D, "D" de DJs e de dança.
E agora algo completamente diferente: um álbum soul. "A sério, a voz de "Milkshake" a atirar-se à soul clássica da Motown, da Stax ou da Deep City?" Poderia ter corrido muito mal. No papel, a voz de Kelis é demasiado frágil para este tipo de som. Na prática, com Dave Sitek a bordo, na produção, a coisa é bem diferente e a grande arte de Food está na forma como camufla tão bem as fragilidades de Kelis e as transforma em forças. Surpreendentemente (Kelis não o sabe fazer de outra forma), o sexto disco da interprete (mais do que tudo, Kelis já provou que é uma enorme interprete) é um triunfo.
✮✮✮✮✮✮✮✮☆☆
domingo, 8 de dezembro de 2013
"Demons" de Jessica Hernandez & the Deltas em 140 caracteres
Depois de sair da Blue Note, Jessica Hernandez (da Detroit da Motown) lança EP que serve para marcar presença enquanto não chega o disco.
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