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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

[Fundo de Catálogo] Nina Simone - Little Girl Blue (1958)


Naquela altura não havia ninguém como Nina Simone. Melhor: nem naquela altura, que eram os finais dos anos 50, nem nos anos que se seguiram (até hoje) recebemos alguém como Nina Simone, eximia ao piano, maleável na voz, insuportável no feitio. "Não eram os seguranças que a defendiam, era ela que defendia os seguranças", brincava-se na altura. Nina cedo começou a revelar esses traços de uma personalidade complicada, a mesma que surge espelhada na interpretação destas e de muitas outras canções. No primeiro concerto "a sério" - antes tinha sido cantora e pianista residente num clube, o Exclusive Side Street Club - pai e mãe, que se tinham sentado na primeira fila, foram obrigados pela organização a sentar-se no fundo da sala. Nina insurgiu-se contra a medida racista rejeitando começar o concerto enquanto os pais não regressassem à fila dianteira. E esta atitude leva-nos a uma outra temática: a da luta pelos direitos civis. Nina Simone seria das poucas personalidades a sobreviver. Já antes tinha sido rejeitada no conservatório. Motivo: cor da pele. 

A infância não foi fácil para Eunice Kathleen Waymon, o verdadeiro nome da artista. Nasceu no seio de uma família evangélica pobre e que não aceito as derivações estilísticas da miúda que ainda para mais tinha mau feitio. Eunice aldrabou a mãe e substituiu o nome de baptismo para fazer nascer a lenda Nina Simone. Assim podia actuar à vontade sem que a mãe a apanhasse a interpretar a "música do demónio".


Mas regressemos à primeira ideia: naquela altura não havia ninguém como Nina Simone. Nos anos 50, Sarah Vaughan, Billie Holiday e outras, bastantes outras, editavam novo álbum quase ao ritmo de mês-sim-mês-não, mas limitavam-se a interpretar vocalmente as canções em padrões jazz. Nina era diferente: não só usava o vozeirão de forma dramática, como ainda tocava piano com poucos. É o que faz nesta auspiciosa estreia, maravilhosa interpretação de canções populares e jazz.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

2013, o ano em que recordámos Nina Simone


2013 é ano redondo no calendário Nina Simone. Se fosse viva, teria celebrado o seu 80º aniversário no dia 21 de Fevereiro de 2013, ano que nos tem recordado regularmente que a voz de "I Loves You Porgy" é uma das mais influentes de sempre. Uma influência que vai de Lauryn Hill a Christina Aguilera. Primeiro foi o polémico anúncio de Zoe Saldana enquanto protagonista do biopic não autorizado. Depois, o badalado sample de "Strange Fruit" do muito discutido Yeezus de Kanye West. Agora, é a vez de Xiu Xiu convidar malta do avant-jazz e reinterpretar as canções de Nina, num álbum arriscado e que não procura uma forma bela de apresentar a essas canções que são uma força da natureza. A voz de Nina Simone era a sua força. E que força. Enfrentava qualquer medo, qualquer oposição. "Eles estão a matar-nos um a um", desabafava após a morte de Martin Luther King. Felizmente a sua voz e a de outros como Luther King e Malcolm X fez-se ouvir mais alto do que qualquer disparo. Ainda hoje trememos.

Convidámos Selma Uamusse (Wraygunn, Cacique 97, Soulbizness e voz que presta Tributo a Nina Simone desde 2009) a comentar a omnipresença de Nina Simone no ano que marca uma década desde o seu desaparecimento. De Moçambique, rapidamente acedeu de forma disponível ao nosso pedido: "estou em estúdio e meio ocupada, mas este ano a Nina comemoraria 80 anos se estivesse viva. Por outro lado, passam 50 anos [desde] o discurso de Martin Luther King, associado aos movimentos cívicos, [sendo que] a Nina teve um enorme papel de intervenção. Um biopic dela faz antever um recordar de todo esse papel social e musical. Fiz um Tributo à Nina em 2009, a Meshell Ndegeocello e a Jacinta este ano. Penso que a principal razão para todas estas movimentações é a enorme mulher que a Nina foi e, tendo alguns temas muito conhecidos, tem um legado interessantíssimo que não chegou a todos e que, começando a explorar, [nos leva a] estudar todo um potencial de intervenção, uma sonoridade intemporal, letras profundas e interpretações inesquecíveis".