sexta-feira, 21 de outubro de 2016

[Fundo de Catálogo] The Rolling Stones - Aftermath (1966)


Embora seja muitas vezes celebrado por ser o primeiro álbum composto exclusivamente por composições da dupla Jagger/Richards, a grande influência sobre Aftermath talvez tenha que ser concedida a Brian Jones. Enquanto os restantes andavam à boleia da obra dos Beatles, Jones passava tempo com um deles, George Harrison, ele que lhe terá mostrado todos os instrumentos fora do comum que aqui encontramos: sitar, marimba e koto. E é só por isso que este é o primeiro álbum dos Stones que nos obriga a parar para ouvir com redobrada atenção. Há ali um baixo fuzz, acolá um ou outro pormenor que foge ao padrão blues-rock dos primeiros registos, mas nada como os toques instrumentais introduzidos por Jones. 



Era para ser a banda sonora de um filme que nunca existiu provisoriamente chamado Back, Behind And in Front. Acabaria por não avançar, por alegada falta de entendimento entre Mick Jagger e o potencial realizador, Nicholas Ray. O vocalista não terá apreciado o homem de Johnny Guitar. É um corte do passado, o abraçar da provocação e às drogas: algumas canções, "Stupid Girl" e "Under My Thumb" à cabeça, irritaram movimentos feministas com alegadas tiradas misóginas.


A versão britânica ultrapassa os 50 minutos e aí já não é apenas um corte com o passado do grupo, mas com o de toda a industria. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

[Fundo de Catálogo] The Mamas & The Papas - If You Can Believe Your Ears and Eyes (1966)


No que diz respeito às harmonias e predilecção do estúdio e desdém pela estrada, o génio de John Phillips só encontrará paralelo no de Brian Wilson. O que os Mamas and The Papas fizeram a nível harmónico, como obra definitiva, só poderá ser comparado a Pet Sounds. Aliás, a estreia apressada da banda Californiana encontra inspiração em Rubber Soul, dos Beatles, e na segunda metade de Today!, dos Beach Boys. Mas foquemo-nos então em Março de 66: a Califórnia hospedava o movimento que ainda hoje serve de farol para o que aconteceu nos anos 60: o hippie. If You Can Believe Your Ears and Eyes é peça central para compreender o que se passava na Costa Oeste, no geral, e na Califórnia, no particular. 

A adoração de Philips e Wilson pelo estúdio coloca-nos num outro momento de transição: os músicos que começam a trabalhar para o estúdio e preterem a estrada. Até à temporada 65/66 o caminho era o inverso. Phil Spector, também ele figura central nesta transformação, ia abanando as coisas e também ele merece a sua homenagem em "Spanish Harlem". Para além, claro, do tão celebrado Wall of sound que surge logo a abrir, com "Monday, Monday". O apontamento final vai para a capa que foi banida não por colocar todos os membros da banda, embora vestidos, na mesma banheira, mas pela presença de um lavatório. Ah, sim, e "California Dreamin'", sim, grande canção!

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

[Fundo de Catálogo] The Monks - Black Monk Time (1966)


Eis os Torquays, uma banda composta por cinco soldados norte-americanos que, em pleno oeste alemão formaram uma banda para desabafarem. Nasceram em 1964 e editaram um single no mesmo ano. Oh, que se lixem os Torquays! Mais uma banda tipo Beatles? Os Monks substituíram-lhes o nome e a direcção e, embora só tenham durado um disco, influenciaram quase tudo o que veio a seguir. De banda tipo Beatles tornaram-se nuns anti-Beatles numa altura em que os próprios Beatles se tornavam anti-Beatles. Raparam parte da cabeça como os monges e vestiram-se como tal. A música era refrescante, mas, como algumas das melhores histórias da pop, ninguém o percebeu na altura. Influenciaram a aparição do punk e do krautrock (recorde-se, o disco foi apenas editado na Alemanha). Não é que se a sua música quebrasse totalmente com o cânone americano, usavam um banjo electrificado, por exemplo, e, no final do dia, Black Monk Time é apenas mais um disco de r&b, mas um diferente, com uma outra coisa que era nova na altura: o feedback que encontraram de forma acidental e incorporaram na sua música. As próprias letras, despidas e idiossincráticas, eram especiais, diferentes de tudo o que se ia fazendo.


Enquanto Torquays não venderam nada, enquanto Monks também não venderam nada, mas, a par dos Velvet Underground, tornaram-se numa das mais influentes bandas de sempre que menos discos vendeu. Black Monk Time terá influenciado toda a gente: Mark E. Smith (Fall), Beastie Boys, Jack White, Colin Greenwood (Radiohead) e até os Horrors.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

[Fundo de Catálogo] Simon & Garfunkel - Sounds of Silence (1966)



18 meses na década de 60, mesmo com a estreia a solo de Paul Simon pelo meio, é uma eternidade, mas é esta a distância temporal que separa o primeiro do segundo discos de Simon & Garfunkel. E esta ideia é importante porque, numa altura em que as mudanças aconteciam a uma velocidade estonteante, o folk-rock explodiu com os Byrds, Dylan e até os Beatles. Sounds of Silence está mais perto dos primeiros, mas bebe claramente dos outros - Paul Simon chegou a dizer que a admiração era tanta que tinha que se esforçar para não imitar Dylan. Mas basta ouvir estas harmonias para nos afastarmos do homem de "Mr. Tambourine Man". A canção título é a materialização dessa nova roupagem: Tom Wilson, o produtor, chamou vários músicos para uma sessão que regravou "Sound of Silence", vieram Joe Mack, Buddy Salzman, Vinnie Bell e Al Gorgoni. A canção folk transformou-se em canção folk-rock e a canção folk-rock tornou-se um clássico intemporal. 18 meses passaram entre 1964 e Janeiro de 1966. Mas a pressão (ou ausência dela) estava do lado do duo: o primeiro disco tinha vendido cerca de duas mil cópias. Era quase como se não existissem. A partir daqui, nunca mais o mundo os conseguiu ignorar.

sábado, 11 de junho de 2016

[Fundo de Catálogo] Beatles - Rubber Soul (1965)


Rubber Soul é o disco que muda tudo. E não nos referimos apenas aos Beatles, este será o álbum mais importante do grupo, tem o condão de despertar a concorrência e a música pop. A partir de Janeiro de 66 nada mais será igual. Referimo-nos a Brian Wilson, claro, mas não só. Em 65, o 6º álbum dos fab four passa a ser barómetro. Mas a relação é reciproca, os Beatles não teriam chegado a Rubber Soul sem os Byrds ou Dylan. Estes e outros, como The Who e Rolling Stones, juntam-se a Wilson nesse louvor mascarado de inveja. 


Esta é a fase da marijuana e pré-LSD, é o momento dos Beatles criarem algo maior. E começa na forma como canibalizam as influências de várias culturas: a importação de motivos orientais para a música ocidental, com a sitar em "Norwegian Wood" - influência de Roger McGuinn e David Crosby dos Byrds, eles, amigos de Harrison. Mas há mais: a chanson em "Michelle", uma das canções mais celebradas, e, claro, a influência norte-americana, de Bob Dylan no lado mais folk e de alguma soul que nesta altura ia dominando os tops. 


Estes são os Beatles a abrirem-se ao mundo e às drogas. Provavelmente, o melhor disco pop até 1965.

sábado, 4 de junho de 2016

[Fundo de Catálogo] Otis Redding - Blue Otis (1965)


Pode um disco de versões ser um dos melhores de todos os tempos? Pode, se cada interpretação garantir a si mesma uma nova identidade, se cada canção colocar a superioridade do original em questão. Aqui há uns dias, no carro, ouvia-se o Roleta Russa na Radar. Não nos lembramos do convidado, mas recordamos a pergunta: "conseguem dizer-nos uma interpretação que supere o original?". Resposta: "bem, podem não concordar, mas "(I Can't Get No) Satisfaction" dos Rolling Stones, pelo Otis Redding. Otis Blue é isto, canções que, eventualmente, terão superado os originais.



Há quem diga que não há melhor disco de soul nos anos 60, há quem vá mais longe e diga que não há melhor disco soul em todo o sempre. O miúdo que deixou os tipos da Stax boquiabertos atingia a maturidade com um registo que, como grande parte dos discos da altura, foi gravado em tempo relâmpago: 24 horas, mais coisa menos coisa. É verdade que músicos como Steve Cropper, Donald Dunn, Al Jackson Jr. (todos dos Booker T & MGs) e Isaac Hayes ajudam, mas, por norma, colocamos o talento desses músicos ao serviço de Redding, mas está reportado que a própria banda admitia que o interprete os levava para um outro nível. 


Sam Cooke tinha falecido no dia 11 de Dezembro de 64. Coincidência: ironicamente, Otis acabaria por morrer no dia 10 de Dezembro de 67, exactamente três anos depois da sua referência maior. 

sexta-feira, 3 de junho de 2016

[Fundo de Catálogo] Bob Dylan - Highway 61 Revisited (1965)

Sabíamos que Dylan (e, consequentemente, o mundo) estava a mudar. A forma como ligou Bringing It All Back Home à corrente é sintomática. Meio acústico, meio eléctrico, Dylan anuncia aquela que viria a ser a grande metamorfose da sua carreira - entretanto, no mês anterior, chocara o público do Newport Folk Festival com um set generosamente ligado à corrente. Enfim, a história está mais do que batida, não vamos dizer que, de um lado estavam os chatos dos fãs acústicos, do outro os que adivinham ali o homem que ia mudar isto tudo. Também sabemos que Robert Allen Zimmerman tinha ganho sensibilidade política com os pais de ex-namorava Suze Rotolo, entre 61 e 64. Não admira que este Highway 61 Revisited se foque tanto na análise social e política, aliado a um som inevitavelmente mais bruto. Este é o seu primeiro disco quase 100 por cento rock.



A história da Estrada que protagoniza o 6º álbum do músico guarda alguns factos e mitos. Foi por aqui que nasceram e/ou viveram Muddy Waters, Son House, Elvis e Charley Patton. Bessie Smith faleceu aqui e, diz a lenda,  que foi no cruzamento da 61 com a Route 59 que Robert Johnson vendeu a alma ao diabo. E, claro, é também a estrada que levava à casa de Dylan. A gravação não terá sido pacífica, com Dylan a equacionar desistir disto tudo. Imaginem, um mundo sem Dylan. É possível? Mas, vá, depois chegou a "Like a Rolling Stone" e voltou a sentir que teria que fazer disto vida. Como não concordar? "Like a Rolling Stone", a abrir, rivaliza em ambição com a última "Desolation Row", canção de 11 minutos, imagine-se. Um name dropping de 11 (!!) minutos em 1965, num disco rock? Ou louco, ou génio ou as duas coisas. 


Nesta altura, independentemente das críticas à electrização, cada disco era melhor que o anterior.