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quarta-feira, 20 de maio de 2015

[Fundo de Catálogo] Beatles - Please Please Me (1963)


Em 1963, os Beatles consideravam-se uma banda de palco pelo que a sua vontade era que Please Please Me tivesse sido gravado ao vivo. A ideia inicial era gravar no mítico Cavern Club, em Liverpool, em Dezembro do ano anterior, mas Please Please Me acabou por ganhar forma nos estúdios da EMI, em Abbey Road, numas míticas gravações que duraram menos de dez horas. Os planos eram ainda mais apertados: estavam agendadas apenas duas sessões: uma de manhã, outra à tarde. A nocturna viria a ser acrescentada depois para a gravação da versão de "Twist And Shout", já depois das 22h, deixada para o fim pelo produtor George Martin que, devido à constipação que atingia Lennon, a guardou para o final, temendo que o Beatle ficasse sem voz. Sobre estas dez horas, Mark Lewisohn escreveria anos depois que terão "sido os minutos mais produtivos da história da música gravada." 


Para além da inquestionável qualidade destas 13 canções, Please Please Me é um marco na história da indústria discográfica por uma infinidade de razões, mas a mais notável prende-se a um nível comercial: o disco ficou 30 semanas no top, algo pouco habitual na altura, em tabelas dominadas por bandas sonoras, cantores e Elvis. Se hoje em dia olhamos para os Beatles como uma influência de quase tudo o que é acorde, não é menor verdade que os quatro de Liverpool também se deixaram influenciar por uma data de gente importante da altura: Chuck Berry, Buddy Holly, os Isley Brothers, Smockey Robinson e as Shirelles - os coros doo hop e a versão de "Boys" -, por exemplo. 



Diz-nos a mitologia Please Please Me que o álbum era para se chamar Off the Beatle Track e que a ideia inicial (do produtor George Martin) para a capa seria colocar os Beatles dentro de uma jaula de insectos - referência óbvia ao besouro, tradução directa de Beatle. Martin era membro honorário da Zoological Society of London, detentora do Jardim Zoológico londrino. Recusada a ideia, ficou a fotografia final, tirada pelo fotógrafo Angus McBean nas escadas do quartel general da EMI, em Manchester Square, na capital inglesa. 

Please Please Me não é perfeito, nem tinha que o ser, mas prova que um álbum pode ser gravado em menos de 24 horas e ser um clássico.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

[Fundo de Catálogo] John Fahey - Blind Joe Death (1959)


E no início era o rock' n' roll. O de Bill Haley, Elvis, Little Richard, Buddy Holly e Chuck Berry. A bossa nova dava os primeiros passos com João Gilberto e James Brown arrancava na sua jornada funk. A estreia de John Fahey era, portanto, um O.V.N.I. que na primeira edição contou apenas com 100 exemplares, tais eram as expectativas comerciais de Blind Joe Death. E foi com apenas 100 edições tornou-se num dos discos mais importantes de sempre. É como aquele mito (?) que diz que apenas uns milhares compraram a estreia dos Velvet Undeground, mas todos os que o compraram formaram uma banda - Fahey influenciou, entre muitos outros, senhores como Pete Thousand, Thurston Moore, Beck, mais recentemente William Tyler e - porque não? - Norberto Lobo.



O título terá sido em parte uma sugestão de um amigo: na altura, quase todos os artistas blues eram Blind qualquer coisa - Blind Willie Johnson, Blind Boy Fuller, Blind Joe Taggart, etc. Chegou a criar uma história à volta da personagem fictícia que dá título ao disco, levando-o por vezes a palco, através da sua personificação - conduzido a palco pelo braço e de óculos escuros. A outra parte da justificação do título estará no mais antigo fascínio da humanidade: a morte. Aliás, Fahey dizia sentir um instinto mórbido na altura. É fácil acreditar, o génio do fingerpicking era um alcoólico com aquela atitude muito punk (muito antes de o punk existir) de desresponsabilização e do it yourself - aprendeu tudo sozinho e criou a sua própria editora quase exclusivamente para se editar a si próprio. 


Blind Joe Death foi gravado na sua casa, em Takoma Park, Maryland. Ainda hoje vive (e como vive!) para lá dela e daqueles míticos (e hoje caríssimos) 100 exemplares. 


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

[Fundo de Catálogo] Buddy Holly - The "Chirping" Crickets (1957)


Gostamos de nos referir à forma como a malta da Stones Throw promoveu Mayer Hawthorne - um nerd com a soul na voz - como uma pedrada no charco. Mas, há mais de 50 anos, um outro tipo de óculos e aspecto pouco cool transformou-se num dos mais influentes músicos dos anos 50 e da história da música popular, referência essencial para a mais aclamada banda de todos os tempos, os Beatles. Buddy Holly foi, aliás, o primeiro a fazer várias coisas: o primeiro tipo sem apelo físico a triunfar no círculo rock' n' roll, o primeiro tipo a criar uma banda de rock e o primeiro tipo de rock a morrer tragicamente, num acidente (aéreo).



O geek pouco à vontade na televisão começou a cantar canções em igrejas baptistas para, depois, se deixar agarrar pelo bluegrass e pelos blues de Lonnie Johnson. São influências que se notam naquele que seria o único álbum de Holly com os Crickets. A trágica morte, com apenas 22 anos, haveria de cubrir um legado que ainda hoje dura. Pai "legítimo" dos Beatles - em 1964, antes da actuação no Ed Sullivan, John Lennon como porta voz dos Beatles haveria de perguntar: "foi este o palco que Buddy Holly em tempos pisou, não foi?" - e inspiração para Dylan, Stones, Beach Boys e outros monstros sagrados. Partiu cedo demais.