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sábado, 8 de julho de 2017

[Fundo de Catálogo] Mothers of Invention- We're Only in it for the Money (1968)


Ninguém estaria a salvo. Se em discos anteriores, os Mothers of Invention iam ralhando com assuntos como o Vietname, os direitos civis, o jornalismo e Elvis Presley, We're Only in it for the Money aumenta o raio de acção de Zappa: os hippies (principalmente os hippies), o psicadelismo, a política, os Beatles (basta olhar para a capa), Hendrix e até Donovan. O projecto é tão mordaz e pouco convencional que mesmo nos números em que há uma aproximação ao formato canção fica difícil levá-los a sério. 

terça-feira, 4 de julho de 2017

[Fundo de Catálogo] The United States of America - The United States of America (1968)


Quando os United States of America editam o álbum de estreia, 1968 já ia sendo marcado por um rock mais pesado e que caminhava para a criação de várias linhagens: o hardrock, o heavy metal, o rock progressivo, etc. Mas o que esta banda de um álbum só traz nem guitarras tem, embora existam teclados que não deixam sentir esse buraco. Joseph Byrd, cérebro disto tudo, era seguidor de John Cage, Stockhausen, La Monte Young e Steve Reich e dizia-se desconhecedor das raízes rock, algo que surpreende pela forma como este disco manifesta influências de Jefferson Airplane, Beatles, Velvet Underground e Nico e Mothers of Invention, por exemplo. Sabem aquelas bandas que soam descaradamente a outras bandas que já lá vão, mas referem nunca as ter ouvido? Deve ser verdade. Mas este não é um registo que se distinga pela sua acessibilidade, tal é a quantidade de motivos avant-garde que terá ido buscar aos já mencionados compositores. Importantíssimo para aquilo que viria a ser o krautrock.

sexta-feira, 3 de março de 2017

[Fundo de Catálogo] The Who - The Who Sell Out (1967)


No dia 14 de agosto de 1967, as transmissões de rádio em águas territoriais do Reino Unido passam a não ser permitidas, aniquilando as rádios pirata que aí se refugiavam para oferecer o rock que fugia da programação das BBCs. Dois meses antes, os Who deixam rasto no Monterey Pop Festival e três meses depois, a banda que, apesar do clássico "My Generation", ainda não tinha editado um grande disco, decide lançar um registo conceptual que simulasse a transmissão de uma rádio pirata, com jingles e anúncios inventados. A ironia inerente ao título estende-se à capa e a algumas das canções do disco, em que promovem desodorizantes, Heinz Baked Beans, tatuagens e pomadas para combater o acne. Para além de algumas referências sexuais que são caras aos miúdos, claro, ou não fosse esse o público das rádios pirata.

A primeira metade de The Who Sell Out deixa o espalhafato dos discos anteriores para se envolver no psicadelismo mais debochado e excessivo, à Beatles de Sgt Peppers ou Zappa nos Mothers of Invention ou mesmo dos Stones que tinham acabado de editar Their Satanic Majesties Request. Só Brian Wilson se parecia levar a sério. Na segunda metade, "I Can See for Miles" é tão a sério que, para além de ser tida (de forma ousada, diga-se) como um dos primeiros exemplos de rock progressivo, terá inspirado Paul McCartney a criar "Helter Skelter", para muitos a primeira canção com laivos metal de sempre. A história:o Beatle estaria a ler uma review a The Who Sell Out e deparou-se com uma frase que descrevia "I Can See for Miles" como a "canção mais pesada de sempre". McCartney, claro, teve que se superlativar. Talvez seja então a segunda parte do álbum, sem referência radiofónicas, que, no meio de tanta paródia, tenha acabado por ser levado a sério. É de valor.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

[Fundo de Catálogo] Moody Blues - Days of Future Passed (1967)


A ideia seria gravar uma versão rock em stereo da 9ª sinfonia de Dvorak, a New World Symphony. O resultado é o primeiro álbum de rock progressivo, antes mesmo do termo e dos King Crimson existirem. Em 1967, a metamorfose era uma prática bastante comum: bandas que viravam do rock para o psicadelismo, artistas folk que de cantores de protesto passavam a compositores barrocos, grupos que trocavam o palco pelo estúdio. A transformação dos Moody Blues. ex-grupo r&b, só por si, não é surpreendente, mas aquilo em que se transformou é o que torna este Days of Future Passed um dos mais influentes discos de sempre a derivarem de um dos discos mais influentes de sempre: Sgt Peppers, claro. 

Já tínhamos laivos de conceito anexados a álbuns, como Pet Sounds, Face to Face, Freak Out! ou, claro, Sgt Peppers, mas este deverá ser mesmo o primeiro álbum a criar um conceito e a navegar à volta do mesmo: o conceito de dia (referência aos Beatles?), com o arranque madrugador e fim nocturnal. Pelo meio, a London Festival Orchestra funde-se com os músicos num som sinfónico, psicadélico, fresco. Não é bem o fogo dos Beatles, é até contido, poético, acolhedor.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

[Fundo de Catálogo] Pink Floyd - The Piper at the Gates of Dawn (1967)



Não há nenhum outro disco dos Pink Floyd como The Piper at the Gates of Dawn porque não existem mais álbuns dos Pink Floyd com Syd Barrett sóbrio e ao leme. A estreia dos britânicos é um reflexo da mente de Barrett, seja do título, "roubado" a um livro infantil às letras que, ou são sobre o seu gato ("Lucifer Cat") ou são inspiradas noutros livros infantis.

Tal como com vários outros registos psicadélicos, há quem acredite que este é que é o álbum que sintetiza o movimento. Já o dissemos antes: o psicadelismo não terá uma obra que o defina, mas sim um conjunto. Estes Pink Floyd aproximavam-se mais da cena mais negra dos Doors do que das bandas californianas mais ligadas ao Summer of Love. 

As letras e constantes referências espaciais acabaram por conceder a The Piper... o rótulo de primeiro registo space rock da história. A banda fundia essas notas futuristas (o homem ainda nem tinha ido à lua) com referências psicadélicas, embora tenham chegado a dizer que não faziam ideia no que consistia o psicadelismo. Claro que sabiam: Barrett mantinha uma relação demasiado próxima com LSD e os Pink Floyd acabariam por visitar as gravações de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, o clássico (quase literalmente) da porta do lado, ali nos mesmos estúdios Abbey Road. Haveriam, aliás, de se deixar influenciar por "Lovely Rita", trazendo sons de animais e outros efeitos vocais que preenchem o disco todo. Mas, como disse e muito bem Joshua Klein, da Pitchfork, por altura do 40º aniversário do disco, "os resultados não poderiam ter sido mais diferentes, com os Beatles a controlares o estudo e os Pink Floyd a usarem-no para perder controlo". Um caos talvez inspirado na loucura dos Mothers of Invention.

Há mais: há referências bíblicas, "Take Up Thy Stethoscope and Walk", eventual alusão a João 5:8., a dicotomia entre "Astronomy Domine", sendo que "Domine" é o latim para “Deus”, e a faixa que se segue, “Lucifer Sam". E, claro, "Interstellar Overdrive" que acaba por conceder pistas em relação ao futuro que haveria de ser o dos Pink Floy sem Syd Barrett. 

É um registo tão importante que há melómanos que são apenas fãs deste disco dos Floyd. Fãs tão ilustres como este, por exemplo.


sábado, 12 de novembro de 2016

[Fundo de Catálogo] Love - Da Capo (1966)


Mais uma banda a picar o ponto na novíssima cena psicadélica. E porque não? O segundo disco dos Love ainda não é Forever Changes, mas já nos explica o fascínio de várias bandas punk pela banda de Arthur Lee: "Seven and Seven is" pode muito bem ser classificada como primeira canção punk de sempre. Da Capo significa muitas mudanças: na sonoridade, no alinhamento (Michael Stuart passa a ser o baterista e Alban "Snoopy Pfisterer passa a ocupar-se do harpsicord e orgão) e na direcção. Têm um Lado A composto por seis canções e, à imagem de Dylan e dos Mothers of Invention, uma única faixa no Lado B. É aí que caem mais claramente no caldeirão psicadélico. 


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

[Fundo de Catálogo] 13th Floor Elevators - The Psychedelic Sounds of the 13th Floor Elevators (1966)


Mas afinal quem inventou o psicadelismo enquanto definição de um som? Uns dizem que foram os Beach Boys, outros apontam os Mothers of Invention, outros os Beatles, outros ainda os Byrds. Mas parece existir consenso na hora de apontar os 13th Floor Elevators como fundadores do género, o que só pode ser gancho histórico, pois a estreia discográfica só surge depois de todos os nomes enumerados lá em cima terem picado o ponto. Como já dissemos anteriormente, não existirá uma banda a servir de pai ao género psicadélico, mas sim um pai materializado no LSD que ajudou a dar à luz vários filhos. 

Mas se a paternidade se deve à droga, a educação, essa, acaba por ditar comportamentos diferentes e oferecer histórias interessantes. A dos 13th Floor Elevators passa por beber das jug bands, indo buscr o instrumento que lhes dá nome e modelar-lhe o uso criando efeitos na voz. E essa é a grande novidade dos 13th Floor Elevators: um som vocal distinto que nos acompanha ao longo de 11 faixas. Para além, claro, de serem os primeiros a casar garage com psicadeleismo e surf rock. Têm também o mérito de fazer a primeira associação directa de sempre de música a psicadelismo: é olhar para o título.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

[Fundo de Catálogo] The Byrds - Fifth Dimension (1966)


Dizem eles que o psicadelismo começa com este Fifh Dimension dos Byrds. A ideia não estará errada, mas apenas incompleta. É difícil encontrar um disco que tenha dado o tiro de partida para a desenfreada correria que haveria de se seguir. Há Rubber Soul dos Beatles, há Pet Sounds dos  Beach Boys, há Freak Out! dos Mothers of Invention, há Roger the Engineer dos Yardbirds e há, claro, este terceiro registo de uns Byrds já sei Gene Clark o principal compositor dos dois antecessores, pretexto ideal para avançar para a mudança, algo que em 1966 acontecia quase todos os dias. 

Em tempos de expansão espacial e em que o LSD era, passe o exagero e a provocação, mais popular que os Beatles, os Byrds exploram os efeitos da droga criada por Albert Hofmann e o paradoxo que é o seu fascínio pela vida extraterrestre e uma banda de elementos assumidamente cristãos. Da faixa título, as teorias ramificam-se entre os que referem que é uma canção sobre drogas e os que defendem que é uma tentativa de explicar a teoria da relatividade de Einstein, "Mr. Spacemen" é precursora do space-rock e "Eight Miles High" foi influenciada por John Coltrane.  

Ah, e adeus folk-rock. Mais ou menos.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

[Fundo de Catálogo] The Mothers of Invention - Freak Out! (1966)


Se estudássemos uma disciplina chamada Frank Zappa e o primeiro teste se concentrasse no álbum de estreia dos Mothers of Invention, Freak Out!  eis uma proposta de pergunta e resposta simples:  

- Este é o primeiro disco psicadélico da história? Também.

- É o melhor álbum de Zappa? Claro que não.

- É o mais importante? Um dos...

Estávamos em 1966 e a história do rock mudava a cada mês, no anterior Dylan tinha incluído canções de quase 12 minutos em Blonde on Blonde no mesmo dia em que Brial Wilson e os Beach Boys mudaram a história da produção discográfica com Pet Sounds. Frank Zappa voltava a baralhar a história da pop. E baralhava com um disco de quatro lados (novidade absoluta) e conceptual sobre a América: o Vietname, os Tumultos de Watts e, consequentemente, os direitos civis, o jornalismo, até Elvis Presley.


A história é digna dos clássicos: Tom Wilson, homem experiente que já tinha produzido Dylan e Simon & Garfunkel, assina-os convencido que são uma "white blues band". Wilson, ao contrário de quase toda a gente rodeava outro Wilson, o Brian dos Beach Boys, abraçou a diferença e acreditou que esta fritaria poderia ser marcante. Terá gasto uma fortuna e arriscado o emprego, isto numa altura em que a paranóia, o invulgar e a diferença supostamente não pagavam contas. Mas nem tudo é difícil em Freak Out!: há doo-wop e canções como "Go Cry On Someone Else's  Shoulder" que só no cinismo e idiossincrasias de Zappa diferia do que uma data de grupos r&b e soul iam fazendo em editoras como a Motown ou a Stax.

Disco de culto, pioneiro naquilo a que se convencionou chamar de avant-garde.